Brumadinho, Rio São Francisco e Responsabilidades: Carta Aberta ao Povo Brasileiro

A Associação Brasileira de Defesa do Patrimônio Geológico e Mineiro – AGeoBRh, vem a público solidarizar-se com as populações de Brumadinho, do entorno atingido do Rio Paraopebas, e todas aquelas que ainda sofrerão as consequências de mais este crime. Solidariedade que se estende, as famílias dos trabalhadores na Vale, em sua dor pela perda.

Brumadinho repete o crime de Mariana, não importando as variações, por irresponsabilidade dos Diretores e da Presidência da Vale, privatizada, e mais preocupada com contenção de gastos e negociatas com multas, para bem dos seus acionistas, que com a imensa responsabilidade que vidas humanas e uma bacia hidrográfica trazem. A Vale, quando pública, não registrou acidentes. O setor público não pode e não deve responder ou ser acusado, mas tem o papel de OBRIGAR a VALE a assumir a responsabilidade, pagando agora, e por todo o tempo necessário, a reparação dos crimes cometidos.

Não admitiremos responsabilizar mortos ou trabalhadores da mina/barragem! O crime de 2015, até hoje, dispersa-se em pelejas judiciais, estranhamente pouco ágeis, que deveriam ser independentes de imediata, visível e intensa ação para reparação e recuperação das cidades ao longo do Rio, limpeza da calha do Rio Doce e das Barragens preenchidas, com retirada dos rejeitos. Até hoje toda a região sofre, com resultados pífios e lentos. Não podemos permitir que, mais uma vez, a Vale use de subterfúgios judiciais, ao invés de providenciar IMEDIATA e constante assistência integral a todos os atingidos e suas famílias, diretos e indiretos; e a recuperação ambiental de toda a Bacia atingida.

A cada hora que passa o número de atingidos cresce porque a Bacia Hidrográfica continua o escoamento de rejeitos, cuja contenção está sendo secundarizada. A desculpa continua a ser, prioridade à vida humana e ao resgate dos mortos. A Vale, tem recursos para garantir todas as frentes, imediatas e paralelas: Pessoas, controle na Bacia Hidrográfica da contenção de rejeito, e apuração de responsabilidades!!

Espera-se do governo brasileiro, dos Ministérios de Meio Ambiente, Cultura e da Secretaria de Mineração, uma ação soberana, a proteção ao patrimônio, cidadãos e território. A Vale mais uma vez, comete crime, mata gente e destrói ecossistemas no Brasil. É tecnicamente possível conter o processo, para controle, limpeza das áreas e retirada do material.

A Região de Minas Gerais, já abalada em 2015, com perdas desde plantações disponibilidade direta de energia e de água, a zoonoses liberadas pelo desequilíbrio, mais uma vez é atingida, quanto pagará a Vale pela sua irresponsabilidade? Quantas barragens ainda terão que romper para o Brasil cobrar a conta e obrigar a Vale a recuperar Minas?

A bacia sob risco, neste momento amplia o quadro de horrores, é a do São Francisco, quarta bacia hidrográfica brasileira, atendendo a toda a região semi-árida! O comprometimento da qualidade e a quantidade de suas águas é o que temos pela frente, como irá a Vale reduzi-los, como o atual governo brasileiro a obrigará a assumir responsabilidades e cumpri-las, é a pergunta que fica?

A distância entre a Barragem rompida e a calha do Rio São Francisco, onde desagua o Paraopebas é de 362,5 km. As Barragens de Retiro e Três Marias estão na foz do Paraopebas, são os impedimentos físicos a passagem dos rejeitos para o São Francisco. A primeira tem volume de 460 milhões de m³, a segunda de 21 bilhões de m³. O volume máximo, 11,7 milhões de m³, da Barragem rompida em Brumadinho equivale a 4,6% da primeira e a segunda, neste momento, com apenas 57% da capacidade útil, apresenta 10 bilhões de m³ livres, cerca de mil vezes o volume do rompimento. Ou seja, ambas podem conter todo o material, impedindo que as águas com alta turbidez e material pesado e toxico, derramem no São Francisco.

Existem formas de contenção, o que precisamos é de ação imediata da Vae, e pagamento imediato dos prejuízos causados. Um custo financeiro altíssimo, muito menor que os das vidas e rios consumidos, que a ausência de aprendizado e cuidado. A(s) Barragem(ns) terão atividade parada, turbinas fechadas, investimento público destruído, comprometimento de toda demanda atendida, devendo manter-se assim até a decantação do material e a limpeza da água, com desobstrução da calha do Paraopeba e das barragens para preservar Minas e as águas do “Seo” Chico.

Urge preservar a vida, evitar amplificação da tragédia e do crime contra a população e contra a água, evitando que os problemas, sejam expandidos adiante destes pontos. Convocamos todas para Total solidariedade aos atingidos por rompimento de barragens, aos riberinhos do Paraopebas e do São Francisco! Responsabilização para a Vale!

Marjorie Cseko Nolasco
Coordenadora Geral da AgeoBRh
Geóloga e Professora Titular da UEFS