Bactérias “blindaram” tecidos moles e moléculas orgânicas de pterossauro de 113 milhões de anos no Ceará, revela estudo inédito

18 de junho de 2026 - 20:59

Pesquisa internacional publicada na conceituada revista iScience identifica novo mecanismo global de fossilização na Bacia do Araripe; pela primeira vez, cientistas detectam esteroides em um réptil voador.

Um estudo internacional revolucionário acaba de desvendar o segredo por trás de um dos maiores mistérios da paleontologia: como tecidos biológicos extremamente frágeis conseguem resistir ao tempo por mais de 100 milhões de anos. Investigando o fóssil de um pterossauro do período Cretáceo, encontrado na Formação Romualdo (Bacia do Araripe, Ceará), pesquisadores do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos identificaram um mecanismo global de fossilização mediado por microrganismos.

O trabalho, publicado nesta quinta-feira (18) na prestigiada revista científica Science, revela que bactérias oxidantes de enxofre desempenharam um papel decisivo na mineralização ultra-rápida do espécime. O processo não apenas preservou a anatomia tridimensional do animal, mas também salvaguardou tecidos moles e esteroides — moléculas orgânicas delicadas que indicam que a dieta desse gigante voador provavelmente era composta por peixes ou lulas.
O esforço científico reúne especialistas de 15 instituições globais, incluindo a Universidade Curtin (Austrália), o Museu Nacional/UFRJ, a Universidade Regional do Cariri (URCA), o CSIRO (Austrália) e o Field Museum (EUA). A equipe utilizou técnicas de ponta como tomografia 3D, geoquímica isotópica, microscopia eletrônica e espectrometria de massa para decodificar o fóssil.

O “Efeito Dominó” Microbiano
Diferente do que se acreditava, a decomposição inicial do réptil acionou um efeito dominó químico benéfico. Os microrganismos que se alimentavam da matéria orgânica criaram um microambiente químico isolado. Essas bactérias desencadearam a precipitação em série de minerais (sulfatos, fosfatos e múltiplas fases de carbonato), criando uma verdadeira armadura de pedra que “selou” o fóssil antes que os tecidos e biomoléculas pudessem se degradar. “A preservação desse pterossauro é extraordinária. Estamos falando de tecidos e moléculas que, em condições normais, desapareceriam em poucos dias. O fato de termos acesso a esse nível de detalhe, mais de 100 milhões de anos depois, mostra como a Bacia do Araripe é um dos sítios fossilíferos mais importantes do planeta”, destaca o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional/UFRJ, um dos autores do estudo.
A professora titular da Universidade Curtin e diretora do Centro de Geoquímica Orgânica e Isotópica da Austrália Ocidental, Kliti Grice, aponta o ineditismo da descoberta molecular. “Este fóssil é uma verdadeira cápsula do tempo. Pela primeira vez, detectamos traços de esteroides em um pterossauro, fornecendo mais evidências de que essas criaturas provavelmente se alimentavam de peixes ou lulas.”

Um gigante de 8 metros no sertão cearense
O espécime pertence ao grupo dos Anhangueridae, répteis voadores que dominaram os céus do Cretáceo.
 Envergadura: O indivíduo analisado tinha cerca de 8 metros de abertura alar.
Origem: Coletado originalmente em 2012 no Sítio Baixa Grande, distrito de Araripe (CE), em um projeto financiado pelo CNPq.
Onde está hoje: O fóssil encontra-se depositado no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, da URCA, em Santana do Cariri. “Os pterossauros foram os primeiros vertebrados a dominar o voo motorizado, com algumas espécies atingindo envergaduras gigantescas. Essa descoberta muda nossa compreensão sobre como fósseis excepcionais se formam e prova que a Bacia do Araripe continua revelando segredos extraordinários”, reforça o prof. Renan Bantim, curador do museu da URCA.

Impacto global e cooperação científica
O mecanismo descoberto no Ceará ajuda a explicar mistérios geológicos em outras partes do mundo. O mesmo padrão de atividade bacteriana protetora foi observado em locais famosos como o Xisto Posidonia (Alemanha) e a Formação Green River (EUA). Isso prova que bactérias oxidantes de enxofre — geralmente ligadas a ambientes marinhos — podem salvar tecidos moles mesmo onde não há ausência total de oxigênio.
O trabalho coroa uma sólida parceria de longo prazo entre a URCA e o Museu Nacional/UFRJ. Através do recém-criado Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT Paleovert), o consórcio brasileiro tem expandido fronteiras. “Temos agora a possibilidade de firmar parcerias internacionais de peso como esta liderada pela Universidade Curtin, atuando diretamente na vanguarda do conhecimento da história da Terra”, conclui Alexander Kellner.