Pesquisa da URCA revela risco crítico de extinção do Guajá-do-Araripe
19 de fevereiro de 2026 - 11:30
Espécie exclusiva da região, o caranguejo Kingsleya attenboroughi resiste em poucos corpos de água da APA Chapada do Araripe. Em novo estudo, pesquisador alerta que o habitat está cada vez mais fragmentado e ameaçado.
Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade Regional do Cariri (URCA) revelou que o Guajá-do-Araripe (Kingsleya attenboroughi), caranguejo de água doce exclusivo da Chapada do Araripe, pode estar criticamente ameaçado de extinção. A espécie, descrita apenas em 2016, foi registrada em apenas quatro dos 27 corpos de água analisados na Área de Proteção Ambiental (APA) da região.
O caranguejo mostrou preferência por riachos mais largos, águas frias e substratos arenosos com pedras — ambientes cada vez mais raros diante da canalização de nascentes, presença de esgoto, lixo, construções irregulares e atividades agrícolas.
Com uma área de ocupação estimada em apenas 0,75 km², a espécie se enquadra nos critérios de risco crítico, de acordo com os requisitos de avaliação da IUCN. Os autores alertam que a fragmentação dos ambientes aquáticos da Chapada pode levar o Guajá-do-Araripe ao desaparecimento em poucas décadas.
A egressa do Curso de Pós-graduação em Diversidade Biológica e Recursos Naturais (PPGDR-URCA), Lucineide Lima, autora principal do estudo, afirma que trabalhar com a espécie foi desafiador e ao mesmo tempo enriquecedor. “Os desafios se deram nos momentos de coletas, pelo hábito noturno da espécie. Enriquecedor por conhecer aspectos da vida do caranguejo que são visíveis em campo, assim como o convívio com a comunidade dos sítios localizados próximos aos locais de ocorrência da espécie e que nos deram apoio logístico para executar o estudo”, diz.
Poluentes e redução de vazão
A autora avalia que a publicação científica apresenta extrema relevância, pois o caranguejo está diretamente conectado à integridade da água, e os resultados indicam que esses locais estão sofrendo com poluição antrópica e diminuição da vazão por suas canalizações. Comunidades que vivem no entorno dos locais de ocorrência dessa espécie utilizam a água desses corpos hídricos para regar plantações, dessedentar animais ou como lazer.
O estudo recomenda proteção mais rígida das nascentes, fiscalização ambiental e ações de educação voltadas às comunidades do entorno. Segundo os pesquisadores, preservar a espécie também significa proteger os ecossistemas hídricos da região, fundamentais para a biodiversidade e para o abastecimento local.
Espécie criticamente em perigo
Com base nos critérios globais de conservação, a área ínfima de ocupação e a grande pressão antrópica colocam o Guajá-do-Araripe na categoria de “Criticamente em Perigo” — o nível mais alto antes da extinção na natureza.
A Chapada do Araripe é reconhecida por abrigar espécies únicas, como o soldadinho-do-araripe, e possui papel crucial na recarga hídrica da região. O Guajá-do-Araripe é mais uma peça desse mosaico ecológico.
De acordo com o professor Carlos Eduardo Alencar, a sua perda não seria apenas o desaparecimento de um crustáceo: seria um sinal de que os ecossistemas aquáticos da região estão entrando em colapso. O pesquisador afirma que a coleta de dados sobre a integridade dos corpos hídricos habitados pela espécie e os resultados são alarmantes. “Todos os corpos de água estão fortemente impactados. Estamos agora desenvolvendo um artigo para divulgação dessas informações, com novos argumentos a serem apresentados para a comunidade em geral e auxílio na gestão ambiental”.
O Guajá-do-Araripe é um lembrete de que o Brasil abriga espécies preciosas e frágeis, cujas existências dependem diretamente da forma como cuidamos dos ambientes naturais. A pesquisa mostra que ainda há tempo de agir, mas a janela de tomada de decisões está se fechando rapidamente.